sábado, 3 de novembro de 2018

Cordel do Capitão


Como todo bom Cristão
Eu sou contra o aborto
Mas para mim bandido bom
Só pode ser bandido morto

Pregar o “não matarás”
É algo que me frustra
Quero poder torturar
A la Brilhante Ustra

FHC eu quis fuzilar
É claro que isso ilustra
Minha forma de pensar
Bárbara, tosca e sinistra

Nosso cidadão de bem
Se defenderá armado
Glória a Deus. Amém!
- E se um tiro errado
Atingir um inocente?
- O que será, Presidente?
Se me perguntar não sei

A Deus o Estado laico
Ao Estado laico, adeus
Na vanguarda do arcaico
O exílio pros ateus

Trump e seus sofismas
São a minha inspiração
Promoverei as armas
O meio ambiente, não

Do Acordo de Paris
Também sairei feliz
Com visão pragmática
E um toque de cinismo
A mudança climática
É apenas alarmismo

Em Israel a embaixada
Vai para Jerusalém
Com uma canetada
Já que Donald assim fez
Eu vou fazer também
A Palestina não tem vez

Temos muito em igual
Fake news nos elegeram
Na nossa mídia social
As mentiras fatos geram

Twiter é praia de Trump
A minha é o Whats App
Ele odeia a BBC
Eu detesto a FSP

Reformarei a previdência
Mas com muita consciência
Pois não irá pelos ares
A pensão dos militares

Amazônia e Cerrado
É para a soja, para o gado
- Mas presidente, e o clima?
- A água, a biodiversidade?
Ora, isso a gente sublima
Lá tem petróleo e bauxita
E o ambientalista xiita
Vai chorar de verdade

O meu filho Eduardo
Idiota ao extremo
Ameaçou o Supremo
Me deixando encrencado

Chamei sua atenção
E pedi perdão ao ministro
Neste episódio sinistro
Quase perco a eleição

Entre as pérolas que falei
O afro-gado-descendente
Tinha mais de sete arrobas
Se eu tivesse filho gay
Esse filho indecente
Preferia vê-lo morto

Resumindo a proposta:
Não vai ter kit gay
É o bem contra o mau
Mudar tudo isso aí, tá OK?
 - Presidente, e a crise fiscal?
Não precisa soltar a franga
Sua repórter de bosta!
Pergunte ao Posto Ipiranga!

domingo, 23 de junho de 2013

Conversa de botequim I

Tanta leitura e observação fazem com que em algum momento idéias próprias venham à tona, ainda que elas sejam em parte uma síntese do que foi visto e lido. Em primeiro lugar, antipartidarismo é perigoso pois vai contra os ideais democráticos e só interessa aos que cultuam o poder autoritário, seja de esquerda, seja de direita. O antipartidarismo não pertence ao movimento e é totalmente diferente do seu caráter inegavelmente apartidarista. Não há apenas um partido político por trás das manifestações – e queira-se ou não, nem todos que estão nas ruas compartilham da mesma ideologia, ainda que todos tenham aparentemente um mesmo objetivo.
É preciso, de um lado, que as pessoas tenham a sensibilidade de não quererem impor ao movimento qualquer caráter partidário. Por outro lado, as reações contra eventuais bandeiras de partidos que teimam em querer participar não podem ser violenta. A liberdade democrática garante que bandeiras e camisas de partidos sejam usadas livremente nas ruas. No entanto, símbolos partidários em um local de grande aglomeração popular apartidária podem ser vistos como apropriação indevida e/ou desvirtuação do carácter apartidarista do movimento e, por isso, causar atritos pontuais, como de fato ocorreu em alguns episódios, tornando tênue o limite entre apartidarismo e antipartidarismo, entre democracia e facismo.  
Uma alternativa para garantir o apartidarismo do movimento sem manifestações antipartidaristas, que infelizmente serão inevitáveis de outra forma, seria promover a participação de todos os partidos. Não seria apenas uma bandeira, mas todas e, paradoxalmente, nenhum partido. Seria um verdadeiro teste de tolerância democrática vermos os símbolos das diferentes legendas lado a lado em prol de um objetivo comum, por mais ampla que seja a pauta das reivindicações.
A pauta central não é difusa, ao contrário, é bem específica. As repercussões na vida prática do cidadão e as formas de resolver os problemas é que são difusas. É unânime a insatisfação com a distância entre o que o cidadão paga ao Estado e o que dele recebe em termos de bens e serviços públicos. Esta distância boçal é justificada pela ineficiência da gestão, pelo inchaço, pelo corporativismo, pela representação efetiva de interesses de setores que são contrários aos do cidadão (como o das empresas de ônibus por exemplo) e, sem dúvida o mais revoltante, pela roubalheira vergonhosamente escancarada e impune. Esta insatisfação se dá corretamente com todos os partidos e é tentador querer jogar tudo no lixo e começar do zero. Isto porém, além de injusto (pois existem representantes sérios e honestos), seria utópico.

Não vejo apartidarismo como negação da política, como muitos estão interpretando. O movimento é claramente político, ainda que apartidário. A negação da política e da necessidade de representantes nas três esferas dos três poderes (inclusive para que as várias reivindicações possam ser implementadas) ou é anarquismo, ou simplesmente alienação, duas formas de utopia, uma bonita, a outra muito confortável. E o movimento é composto também, mas não apenas, de anarquistas ou alienados. 

sábado, 4 de maio de 2013

Domingo de Sol na Pont des Arts


Domingo de Sol* – literalmente – na simpática Pont des Arts. Calor para brasileiro nenhum botar defeito. Apesar da brisa não ser tão refrescante como no litoral nordestino e do Sena não ser a praia de Ipanema e não permitir tchibuns, o final de tarde foi vachement sympa. Brasileiros, aliás, numerosos, reunidos ali, em frente ao Louvre, na véspera da comemoração da Queda da Bastilha, marcando espaço. Recife, Fortaleza, Natal, Salvador, Sampa, Rio, BH, etc. Sudeste e Nordeste bem representados, mas é verdade que não faltou gente do Norte e do Sul também. O grupo Solo Brasil, que na quinta anterior fizera um espetáculo genial na Maison du Brésil, esteve exatamente no mesmo lugar da Ponte, exatas 24 horas antes, representando o Centro-Oeste.

Mas se falta a praia de verdade (Paris Plage é piada), a luz desta cidade não deixa à desejar. Esplendor de final de tarde - ou melhor, de final de noite, já que o sol se deitou perto das 11, quando o calor finalmente cedeu à brisa. Depois dos tradicionais tons de laranja, rosa e violeta, foi a vez de uma lua cheia e vermelha brindar os brasileiros que formavam a maior roda da ponte, justamente em volta da nossa bandeira pendurada na murada de ferro e até então brilhando, iluminada dignamente pelo sol poente.

Brasileiros em maioria, mas não faltaram nossos anfitriões franceses e irmãos argentinos. Lembrando dos coreanos e de outros turistas de n'importe que nacionalidades, que passavam babando e, muitas vezes, paravam para escutar a música mais rica do mundo, cantada e tocada pelo povo mais alegre - a despeito da pobreza material da grande maioria.

É bem verdade que alguns não se deram conta dessa babação geral, pois estavam ocupados cantado, tocando, vendo o sol se por ou a lua nascer. Mas quem parou para prestar atenção pode notar que boa parte dos que passavam em frente à roda sorriam e nos olhavam, com uma pontinha de vontade mal disfarçada de parar. O Ziraldo tem ou não tem razão quando diz que o Brasil é o único país cujo nome já vem seguido de ponto de exclamação? Pois é: Tu viens d'où? Do Brasil. Ah, du Brésil!!!!

Tanta admiração também pudera diante de um som tão bom, que ia de Paulinho da Viola a Luiz Gonzaga, de Zé Keti a João do Vale, passando por Jacksons e Chicos (Buarque, Science e César), Antônios (Jobim, Nóbrega) e Geraldos (Pereira, Vandré, Azevedo). Sem falar nas Claras, Elisas, Marias e Marisas, tantos outros brasileiros e brasileiras que daria para ficar um dia inteiro só escrevendo nomes.

Som que unia cavaquinho à flauta transversa, violão ao sax, permeado sempre pela percussão tradicional do pandeiro, tamborim, ganzá e atabaque. Admiração diante de tanta alegria que emanava dos nossos pesquisadores dublês de músicos e dos estudantes cantadores brasileiros. Tanto daqueles que estão de passagem quanto dos que estão por mais tempo.

Admiração verdadeira diante da comunidade brasileira na França, que se associa algumas vezes para cantar e mostrar sua cara sorridente e, vale lembrar também, para fazer valer seus direitos quando a ocasião pede - ou pelo menos tentar - como foi no caso da visita no Ministro Cristóvam Buarque, algumas semanas antes.

Mas como acontece geralmente nesta cidade, o último metrô (literalmente, e não o filme de Truffaut) marcou o fim dessa antológica noite brasileira na França. Só mesmo o fim do transporte barato para colocar a brasileirada na cama tão cedo, perto de uma da matina, sete horas após um tímido começo. Se não, certamente uma parte iria ficar até mais tarde – ou mais cedo, até o sol aparecer de novo na segunda. E isso tudo apesar do nosso amigo "Moi Congo!!!." Mas essa é uma outra história...

* Domingo de Sol foi um evento musical organizado pela Associação dos Pesquisadores e Estudantes Brasileiros na França - APEB-Fr.

(Publicado inicialmente no Yahoogroup  APEBFR em Julho de 2013)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

No Calor dos Suicídios

São Paulo capital. Hoje, porém, a garoa desta terra está longe. Refugio-me do sol e do calor no café mais próximo que, no entanto, não acredita ou não está preparado para a temperatura. Seus aparelhos de ar-condicionado não dão vazão, e a sensação térmica é desconfortável. Termino O Globo de uso comum dos clientes e ligo para confirmar a primeira reunião do dia. Em vão. Cancelada. Faço uma segunda tentativa para acertar a tarde de trabalho que ficara combinada uma semana antes. Recebo do meu interlocutor uma promessa de retorno em algumas horas. 

Decido mudar de café na esperança de encontrar uma temperatura melhor. Enfrento o sol que insiste em martelar as cabeças dos que se aventuram pelas ruas. Nada feito. Talvez seja um mau da cidade. Mesmo longe do ideal, o calor é um pouco menor que no café anterior, e resolvo ficar um pouco mais. Termino o Valor, almoço, leio algumas páginas do Brooklyn Follies do Paul Auster e pelo celular troco emails duros  com um membro da família que vem tentando se matar com um automóvel.

O tempo passa e percebo que o telefonema confirmando a tarde de trabalho não virá e que terei o tempo  livre. Final de ano é assim mesmo, sobretudo os dias entre o Natal e o Reveillon. Se estivesse no Rio, seria ótimo, mas aqui em pleno Itaim Bibi, sinceramente, eu preferiria estar trabalhando. 

Resolvo aproveitar a tarde para comprar um presente para um casal de amigos que irei visitar a noite. Já havia decidido dar uma das biografias do Graciliano para um, e o mesmo livro que estou lendo do Paul Auster para o outro, mas como bom carioca deixara a compra para a última hora. Vejo pelo Google que há uma livraria bacana não muito longe, a cerca de 800 metros de onde estou. O mapa me faz seguir a rua do café ( Jerônimo da Veiga) até a Faria Lima, que cruzo até a Jorge Coelho. Pelo mapa, a Rua Doutor Mario Ferraz já seria logo ali, mas chego na Araçari e me perco. Ao ampliar o mapa, vejo que na verdade a Mario Ferraz é uma paralela. Por acaso encontro um atalho por dentro de um estacionamento que vai de uma rua à outra.

Meu primo me liga para comentar uma tarde super agradável que passamos juntos alguns dias antes em família, com outros primos e tios de quem gosto muito. Prometemo-nos nos ver mais. Chego no local onde seria a livraria, como indicado pelas placas. Vejo apenas um café. As quatro  poltronas bergères me seduzem instantaneamente. Esqueço-me até do calor. Mas lembro-me da missão seminal e pergunto pela livraria. Mudou-se para o Shopping JK, me informa a balconista. Procuro saber se há outras por perto e, ante as opções que se apresentam, resolvo ir até o tão falado centro de compras. 

Vejo no mapa que estou próximo a Jacurici, onde minha avó materna morou por vários anos. Resolvo passar em frente. Vejo de longe os três prédios de cor ocre que por esta característica sempre se destacaram (eu os identificava facilmente mesmo do avião). Chego na frente do prédio. Não me lembrava que ele se chamava Taormina, e tampouco do número 129. Engraçado, o apartamento onde minha mãe mora hoje, e onde minha avó morou até morrer, fica a  1290 metros dali e também se chama Taormina - e o número é 127!). Ao ver o prédio e as áreas comuns a nostalgia se intensifica. Recordo-me das brincadeiras de criança durante as férias na áreas comuns que unem os três prédios e que formam um enorme play ground térreo. Lembro-me em particular do poliopticon que ganhara da minha mãe e da Copa de 82, cujos jogos eu vira naquele apartamento. Margeio o novo Parque do Povo que, na época, dava lugar a uma pista de bicicros à qual meus pais tinham a pachorra de me levar para me trazer de volta sempre todo enlameado ou ralado.

Chego no shopping e me impressiono com o luxo da arquitetura e das lojas, mesmo já tendo lido a respeito.   Sinto-me meio deslocado, mas a temperatura ao menos está agradável. Caminho a esmo procurando pela livraria, observando a opulência do lugar. Ao caminhar recebo o telefonema de uma amiga chamando-me para ir à praia. Pergunto como foi de Natal e ela diz que foi pesado, pois uma amiga de 35 anos pulara do décimo andar e finalmente conseguira atingir o objetivo já tentado há dez anos, quando ela saltara de uma altura mais modesta. Eu a conhecera, era amiga de uma ex-namorada. Durante a conversa, erro pelo shopping com a cabeça no passado, sem perceber o que está ao meu redor. Lembro-me de alguns momentos com a menina, compadeço-me dela e de sua família. Penso no caso do suicida da minha família - que não se considera um suicida apesar de agir como tal - torcendo para que ele mude de comportamento - ou, ao menos, para que com ele permaneça a sorte ou a proteção divina que felizmente vêm evitando um acidente mais grave.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

La Cafetière


Tinha por suas cafeteiras italianas - sobretudo pela primeira, a menor - um apreço desproporcional ao que em geral atribuía às coisas de natureza material. Este apego se dava certamente pelas lembranças de ocasiões felizes marcadas pelo sabor da bebida feita no apetrecho em metal prateado. Como se a cada ritual de preparação de um café, as reminiscências dos momentos passados aflorassem com seu delicioso aroma e, aceleradas - seria pela cafeína? - desfilassem em seu pensamento.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

walking in the city

Caminhava pela rua em que morava. Ia privilegiadamente a pé e sem pressa rumo a um compromisso. Seguindo regras um tanto o quanto básicas de sobrevivência, parou na esquina antes de atravessar a rua e olhou para os lados. Ao ver o ônibus parar bem antes do cruzamento, voltou a cabeça para o alto, em busca de um sinal vermelho, ainda que soubesse que ali não havia sinal. O ônibus piscou o farol, confirmando a gentileza. Ao atravessar, acenou ao condutor para agradecer, e viu que um cadeirante também atravessava a rua. Pode então entender melhor o comportamento daquele motorista, que passou a admirar. Ficou ainda mais feliz quando viu que, na calçada, havia uma rampa para a cadeira de rodas, e sentiu na boca um gosto bom de civilidade e cidadania. Não estava em Oslo, mas em Niterói. Lembrou-se então que já há algum tempo vinha reparando que, no sempre congestionado Centro do Rio, um número crescente de motoristas parava antes da faixa de pedestres, mesmo com o sinal aberto para seus veículos, e só seguiam adiante certos do espaço suficiente, para que não fossem eventualmente obrigados a parar bem no meio da faixa, interrompendo o fluxo de pedestres, inútil imbecilidade que o deixava extremamente irritado.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Une Vraie Histoire


Cumprimentou o gardien que, ajoelhado, lustrava o batente de metal dourado da porta de entrada. Ao passar por ele, sentiu o cheiro rançoso do suor não lavado do corpo. Subiu os três lances de escada e, para sua estupefação, o odor o perseguia. Pensou em subir os 3 andares restantes, por curiosidade, apenas para testar o alcance daquele cecê. Estava, porém, atrasado, e deixou de lado a peculiar idéia. Abriu a porta do deux pièces que lhe fora emprestado gentilmente pelo seu amigo - que estava na Suíça, trabalhando na tradução do La Disparition, de Georges Perec - pegou o telefone celular esquecido e desceu, mas desta vez com a mão tampando devidamente as narinas.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Verde que te quero abaixo


Ele vivia em um país que dispunha da maior reserva de água doce do planeta, protegida em grande parte pelas suas exuberantes florestas, com incrível biodiversidade. No entanto, naquele país estranho, governantes jurássicos não conseguiam ver que a única saída óbvia não apenas para seu povo, mas para toda a humanidade, era a conciliação da preservação do meio ambiente com o desenvolvimento. Mas para aqueles homens, que aliás eram remunerados com recursos públicos e que tinham como dever único e exclusivo representar o interesse daquele povo, o meio ambiente era apenas um entrave ao desenvolvimento. Visão tosca que ignorava a importância das florestas para a regulação do clima e dos recursos hídricos, tão importantes para as práticas agrícolas que aqueles estranhos homens defendiam a qualquer preço, como se essas práticas fossem incompatíveis com a preservação das florestas, e não totalmente dependente delas, como de fato são ...

Para boa parte dos políticos daquele patropi, os ambientalistas eram entreguistas ou inocentes úteis.

Naquele país, os defensores mais radicais do meio ambiente eram assassinados impunemente...

Bizarro país.

sábado, 14 de maio de 2011

La Clope


Suas primeiras lembranças foram as de um campo. A vista, apesar de se repetir monotonamente a cada dia, era bela. Durante anos seria o tempo - tanto o clima quanto o decorrer das horas – quem traria as sutis e únicas variações na paisagem. Veria noites de lua nova e de absoluta escuridão em que o céu era pontilhado por diamantes, e também pores do sol esplendorosos, mas foi o nascer da lua cheia vermelha que o marcaria profundamente. Ante a esse espetáculo, sempre perdia o fôlego, problema que, mesmo sem saber, viria a causar nos outros em um futuro próximo.


A paisagem se repetiria até que um dia ele ouviria um barulho estranho, que destoava do silêncio até então perene daquele local, e que foi aumentando até culminar no desaparecimento total da luz. Não mais estava estático: o movimento e o trepidar eram sensações nítidas, a despeito de nunca tê-las experimentado antes. Em certo momento, essas sensações parariam por alguns minutos, antes de se transformarem em uma rápida e intensa queda, seguida de uma nova sensação de movimento, esta mais suave e mais longa. Após nova parada, a luz surgiria novamente, mas com ela viria o caos total: quedas freqüentes e abruptas e um barulho ensurdecedor durante algumas horas. Depois, logo antes da luz sumir novamente, viria uma estranha sensação de compressão, que nunca mais o deixaria até o fatal momento.

Sentiria novamente, e por repetidas vezes, as sensações de movimento suave e de queda abrupta, sempre na escuridão. Por fim, voltaria a sentir a sensação seminal de estar parado em um mesmo lugar, e as lembranças dos primórdios da sua existência lhe seriam agradáveis por um lado, mas fariam com que a ausência de luz lhe fosse insuportavelmente triste.

Um dia, depois de longo tempo parado, voltaria a sentir a sensação de movimento, porém diferente de tudo o que sentira até então. Logo viria a luz, descortinando uma paisagem estranha e inédita: um ambiente enfumaçado, cercado de espelhos e garrafas, onde vozes e música se misturavam num coquetel inaudível.

Subitamente, uma sensação agradável de calor o preencheu de um êxtase nunca antes sentido. Ouviu um suspiro, e suspirou também. Em seguida, flutuou por alguns instantes até tudo se acabar.

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"La Clope" ou "um outro ponto de vista para Inês"

"olhando ao nada, bateu a cinza do cigarro no chão e suspirou.

que merda…”

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Construção de um Personagem: Ela


Retardatário por causa de um longo dia de trabalho, juntei-me, finalmente, ao grupo que já estava na pizzaria, a tempo de escutar sua reclamação sobre a impossibilidade de fumar, apesar de o lugar ser aberto. Sua queixa não fazia o menor sentido, pois além de ela ser frequentadora assídua do restaurante, já fazia certo tempo que a lei coibindo o fumo havia sido aprovada. Estranhei ainda mais quando soube, no decorrer da acalorada exposição de argumentos a favor do seu direito de fumar na varanda, que ela estava sem cigarro...

Seguiu-se o jantar com as comandas, que tiveram que ser refeitas uma vez, pois ela fazia questão de controlar os pedidos da sua irmã e da sua sobrinha, por ela convidadas. Com os pratos já na mesa, ela mudou de idéia e resolveu dividir a lasanha à bolonhesa comandada pela irmã, mas não sem antes demonstrar toda sua sensibilidade e sutileza ao chamar de boi ralado o ingrediente principal do célebre ragú italiano.

Provou da lazanha mas não gostou e devolveu ao prato da irmã a porção da qual havia se servido. Fez questão de reclamar com o garçom da falta de massa na lazanha, mostrando-lhe o cardápio onde a presença da massa era garantida. O volume da sua voz era alto. Sem graça, eu não soube para onde olhar quando a bela dona do restaurante, que estava na mesa do lado, virou-se em nossa direção, curiosa para ver quem fazia tão exdrúxula reclamação. Em seguida o garçom retornaria da cozinha, onde tinha ido, a pedido dela, levar a reclamação ao chef, que garantiu que sim, a lazanha continha uma fina camada de massa. Mesmo assim, ela pareceu não acreditar, o que não chegou a me surpreender pois, de fato, coisas finas parecem não fazer parte do seu universo.

Em seguida, contou algumas histórias sobre suas aulas de dança de salão, frequentadas por ela e pela irmã , que incitou a conversa ao explicar que havia deixado de ir às aulas por conta por das frequentes discussões entre alunos e professor. Entre os episódios por ela narrados, me marcou a cena em que ela levou uma pisada no pé do seu par, por sinal, o professor. Machucada e revoltada, tentou de imediato o "justo" revide. Seu par evitara habilmente o golpe, porém novas tentativas se seguiram e ela finalmente conseguiu revidar a pisada. Ao lembrar dos saltos altos e finos que ela usava senti profunda pena do professor, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente.

Por fim, sacou o leque de problemas familiares, numerosos e complicadíssimos, e sempre em tom desnecessariamente alto, disse que não levava para casa desaforo de ninguém, apenas de quem a sustentava, que, por sinal, estava ao seu lado na mesa.

O jantar terminara. Exausto e sem a mesma paciência que ele, despedi-me de todos. Não tive a oportunidade de olhar em seus olhos para ver ela estava usando as lentes de contato azuis, que juntas à tinta loura dos cabelos e às próteses de silicone compunham seu estilo fake. Isso, porém, já não mais importava, pois naquele momento, o alívio da partida era a única coisa que passava pela minha cabeça.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

sábado, 2 de abril de 2011

Bueiros pipoca e a energia nuclear no Brasil


Estava estarrecido. Perguntava-se, de forma cada vez mais freqüente, se seria mesmo tão maravilhosa sua cidade natal, na qual a vida seguia entre bueiros que estouravam como pipoca, ferindo moradores e turistas, e entre as sentenças de morte que os próprios policiais julgavam e executavam sumariamente, sem recurso nem dó.

Pensou na belíssima Angra dos Reis, densamente povoada, onde foram instalados dois reatores nucleares durante o vergonhoso regime militar. Pensou na vulnerabilidade do país e daquela região especificamente, e nos impactos dos desastres naturais amplificados pelas falhas crônicas das instituições do seu querido patropi. Pensou no recente e gravíssimo acidente do Japão. Pensou na questão da transparência das informações em caso de acidente, e lembrou-se dos policiais que, em plena democracia, ainda torturavam e executavam, herança do regime militar, tal qual os reatores. Comparou a eficiência das instituições brasileiras e japonesas, lembrou-se dos bueiros explodindo como pipoca, dos incêndios recentes causados por um simples mal uso de maçaricos - mas que estragaram o carnaval de três escolas de samba e destruíram boa parte de um monumento histórico, onde ele por sinal havia feito seus estudos. Subitamente teve medo e repulsa por Angra 1 e 2 e desejou, com todas suas forças, que desistissem imediatamente daquela loucura chamada Angra 3.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Tião, Aldo e Oscar


Conheci Tião ano passado, lá mesmo em Gramacho. Foi uma oportunidade trazida por meu grande amigo Aldo, que havia desenvolvido com o catador um importante laço graças ao seu trabalho na Secretaria de Direitos Humanos e, em particular, a uma lei por ele concebida e que obrigava as empresas estatais a destinaram aos catadores todo o material descartado porém passível de ser reciclado. Foi enorme o benefício trazido pela lei e Aldão, que ficou com um baita cartaz junto àquela categoria, fez bons amigos, entre os quais Tião.

Abre parênteses: desde 1999 eu vinha estudando a questão do aproveitamento energético do lixo através do uso do biogás como combustível. Também vinha olhando a economia de energia – e, por conseguinte, as emissões evitadas de gases de efeito estufa – em decorrência do processo de reciclagem de alguns materiais como vidro, alumínio, papel e plástico. Em 2001 o CentroClima, centro de pesquisa do qual eu fazia parte na COPPE/UFRJ, elaborou um projeto piloto, baseado em Gramacho, que tinha como objetivo produzir uma pequena quantidade de eletricidade renovável, usando como combustível o biogás produzido naturalmente pelo próprio aterro. Ademais, o projeto previa a plantação de mamona, também no aterro, com o duplo objetivo de recuperar parcialmente a área e de gerar matéria prima para a produção de biodiesel, que seria o segundo combustível renovável a ser utilizado para geração de eletricidade. Muito interessante na teoria, o projeto avançou na prática até certo ponto, mas não deslanchou por motivos que não cabem aqui detalhar. Fecha parênteses.

Eu havia voltado ao Brasil há poucas semanas, após 8 longos anos na Europa. Estava no Rio com Aldo quando ele comentou que iria participar de uma reunião em Gramacho entre funcionários do INEA e lideranças dos catadores. Não hesitei e me convidei no mesmo instante. Aldo aceitou, também de bate-pronto.

Participei como ouvinte da reunião e achei bastante interessante o encontro, que tinha como objetivo, entre outras coisas, organizar um encontro estadual da categoria, se não me falha a memória. Fiquei especialmente impressionado com um jovem muito articulado e carismático, e também com sua história de vida, que fluía na medida em que eu fazia perguntas durante as pausas da reunião.

Tenho admiração por pessoas que conseguem não ser esmagadas pela vida a despeito da falta de oportunidades e da desigualdade de condições. Esta admiração é ainda maior quando estas pessoas conseguem algum tipo de destaque. Tião, quando criança, trabalhava com a mãe. Eram catadores de material reciclável em Gramacho. Ele “teve sorte” quando a entrada de crianças no aterro foi proibida, pois isso lhe permitiria fazer o que toda criança deve fazer: estudar ao invés de trabalhar, e Tião soube aproveitar esta oportunidade.

Como ele mesmo nos conta no documentário Lixo Extraordinário, no qual Vik Muniz, ao mesmo tempo em que se auto-promove, nos emociona ao transformar em arte a dura realidade dos catadores, Tião leu O Príncipe. O jovem líder achara no aterro, onde voltaria a trabalhar depois de atingida sua maioridade, um exemplar “chorumado” do clássico de Maquiavel. Sua curiosidade acerca do adjetivo maquiavélico, que ouvia falar com frequência, serviu de estímulo para que o livro fosse recolhido para ser devidamente lido depois.

Por ocasião do meu encontro com ele em Gramacho, Tião me contou que, na medida em que ele ia se politizando, as portas iam se abrindo. E que sua ida à primeira edição do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, que reúne lideranças importantes de diversos grupos minoritários, faria com que ele tivesse outra dimensão da importância dos líderes, papel que ele foi assumindo naturalmente junto aos catadores.

O trabalho de Vik Muniz, que teve a sensibilidade para potencializar as virtudes do líder catador, trouxe a Tião uma grande exposição mediática, que culminou com sua ida a Londres para presenciar o leilão da sua própria imagem na Sotheby’s, e com sua participação na cerimônia de entrega do Oscar, ao qual o filme concorre na categoria de documentário.

Tião tem dado mostras de que quer dividir com seus companheiros os benefícios que estes acontecimentos vêm trazendo à sua vida, o que apesar de natural, é admirável. Torço para que o filme ganhe o Oscar. Torço, sobretudo, pelos catadores e por Tião, imagem legítima - e agora também cult - da categoria, que vem sendo representada com propriedade e sabedoria pelo jovem líder.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Mestre dos Contrastes

É sempre muito bom poder ir ao CCBB, seja apenas para tomar um café, seja para uma exposição. Neste segundo caso, difícil é ter tempo e principalmente estado de espírito para aproveitar o programa plenamente. Mas felizmente, de vez em quando, conseguimos reunir as condições ideais (ou mínimas) de temperatura e pressão.Foi meu caso no final da tarde de quarta passada, quando vi “O Mundo Mágico de Escher” , que fica até 27 de março no Rio.

Fui direto do escritório, que fica a apenas 5 minutos do local da exposição, e aos poucos fui me desconectando dos problemas nossos de cada dia. Apesar do tempo limitado e espremido por um compromisso em seguida, e a despeito de uma leve concorrência pelo espaço das galerias, deu para penetrar bem no universo do artista, graças não apenas a sua genialidade, mas também à curadoria excelente.

Entre as preciosas informações que ajudam a melhor percorrer o impressionante trabalho do grafista holandês, aprende-se que ele havia uma relação especial com o infinito. Isso é explicitado, por exemplo, em breve nota sobre “Menor e Menor”, cujos temas diminuem de fora para dentro (ou será que crescem no sentido inverso?).

E também sobre “Limite do Círculo (Céu e Inferno) IV”,

cujas figuras, inversamente às da gravura anterior, diminuem à medida que se caminha do centro para os limites exteriores do círculo, que paradoxalmente parecem não existir. Apesar dos temas geométricos diferentes, a relação entre os dois e o infinito é óbvia. Ainda que evidente, talvez esta relação passasse em branco (e preto) pelo consciente do expectador mais apressado que não lesse a preciosa informação. Mas dificilmente ela deixaria de reverberar no inconsciente de quem vê as figuras, ainda que en passant.

E foi exatamente o que aconteceu comigo. Após uma segunda exposição - esta sobre transporte sustentável no Centro Cultural dos Correios - e depois da terceira e última mudança de bar (portanto horas depois de ter visto as gravuras de Escher), a questão do infinito e do inconsciente não pode deixar de emergir do meu.

Aliás, eu já pensava muito no inconsciente como um universo, logo como algo infinito, apesar dele estar fisicamente circunscrito em nossa caixa craniana. Ou não!, talvez dissesse Caetano, inspirado por Jung, segundo quem nosso inconsciente estaria de certa forma conectado ao universo. Ou estarei escrevendo besteira? Pode ser, nunca li Jung, mais uma lacuna a ser preenchida, mas acho que vai por aí sua idéia de sincronicidade.

Naquele momento, em um insight a posteriori, percebi que “Menor e Menor” era, para mim, a imagem clara desse universo circunscrito no cérebro humano, que contrastava claramete com “Limite do Círculo”, para mim a nítida expressão da expansão do universo, como e onde quer que seja seu limite - ou sua ausência, o que é ainda mais angustiante. Ao pensar nesta falta de fronteiras, senti uma espécie de arrepio na coluna e de frio na barriga, que contrastaram com o calor infinito daquela noite na Praça XV.

Preto e branco, dentro e fora, finito e infinito me mostravam a maestria de Escher e de sua arte dos inversos e dos contrastes.

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Hoje Antônio Olavo Pereira, autor de Fio de Prumo, Marcoré e Contramão, completaria 98 anos de idade. Onde quer que ele esteja - próximo, quem sabe, aos limites do universo - estamos conectados.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Crônica de uma tragédia anunciada

Lembro-me claramente da segunda-feira 5 de abril de 2010. Estava com meu pai em uma pizzaria quando disse “essa chuva vai dar merda”. A constatação era óbvia. Não me lembrava de ter visto em toda minha vida uma chuva de tamanha intensidade. Durante aquela madrugada, em que dormi tranquilamente embalado pela chuva, centenas de pessoas perderiam suas vidas ou a de seus familiares. Outras dezenas de centenas veriam suas casas desabar ladeira abaixo literalmente e ficariam desabrigadas. No dia seguinte, as cidades do Rio e Niterói acordariam em estado de caos. Mais uma tragédia anunciada.

Na última terça-feira 11 de janeiro, também chovia bastante quando saltei do carro em frente à arena onde Amy Winehouse faria sua segunda apresentação no Rio e terceira no Brasil. Enquanto minha amiga estacionaria o carro, eu iria retirar os ingressos na bilheteria e ficar na fila. A chuva era intensa, fazendo funcionar a todo vapor seu comércio informal - no Rio, quando chove, sempre há um ambulante por perto oferecendo proteção, praticidade que revela de certa forma a precariedade social do país.

A excitação e a expectativa de ver ao vivo uma artista com o talento da Amy, aliadas a uma boa dose de egocentrismo natural do ser humano (muitas vezes exacerbado em alguns), impediram-me de pensar na identidade à qual os cidadãos fluminenses (eu inclusive) parecem ter se acomodado: chuva forte no Rio de Janeiro = tragédia.

Minha preocupação maior era achar guarda-chuvas para mim e para minha amiga (pois as capas reinavam absolutas), sem o que ficaríamos encharcados, encontrar o fim da fila que estava enorme, e reencontrar minha amiga, que fora estacionar o carro. Em momento algum, nem mesmo quando tivemos que colocar o pé na lama para chegar ao carro depois de terminado o show, pensei que mais uma tragédia estaria começando. E desta vez, a pior de todas elas. Total incapacidade de se colocar no lugar do outro. De pensar nos que moram em áreas de risco e que vivem um drama toda vez que chove.

Depois, quando caímos na real, graças à mídia, que não deixa de tirar seu quinhão e vai muito além do que deveria explorando literalmente a tragédia dos outros, vem a mobilização, a sensibilização. Claro, não podemos ficar insensíveis e devemos ser solidários, mas esse comportamento social esquizofrênico mais parece uma forma de expurgamos a nossa culpa do que um exercício de cidadania. E tasca colocar a culpa no governo. Como se não vivêssemos em uma democracia... Como se não fôssemos nós quem elegesse nossos representantes...

Fazemos nossas doações e nos sentimos melhor. No dia seguinte, voltamos para os shows e para o surfe, e esquecemos de que fazemos parte da sociedade e que é esta sociedade de fato a responsável.

Garimpando o pouco que presta do Globo, encontrei uma frase do Chico Alencar, por quem não tenho simpatia em especial, mas que não poderia resumir melhor o meu sentimento e, ao meu ver, nossa situação como cidadãos brasileiros e fluminenses em particular: " a comovente e episódica onda de solidariedade não tem se transformado em torrente cidadã permanente.”

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

lucid dream ii: the dream


Adormeço tendo, na véspera, me programado para tentar sonhar de forma lúcida. No primeiro despertar real, por volta das 5 da manhã, não trago, porém, lembrança de sonho algum. Impossível portanto saber se eu tivera ou não o tão esperado sonho lúcido.

Despeço-me do meu irmão e tento voltar a dormir, ainda pensando nas questões discutidas na noite anterior: sonho lúcido, paralisia do sono, falso despertar, entre outras.

Volto a adormecer e logo começo a sonhar. Tenho consciência de que sonho. O sonho lúcido viera. E ainda por cima, generoso, pois me concedia um certo controle sobre si. Decido descer uma montanha de neve em cima de um snow board. Dito e feito. Não controlo a forma da montanha, nem a velocidade da descida, mas consigo controlar mais ou menos as manobras. E a sensação é incrível, uma velocidade nunca experimentada por mim antes, e manobras com vôos impossíveis. Tudo vai bem, até que começo a cair, já sem a prancha no pé, sobre nuvens cinzentas, o que me traz uma sensação angustiante.

Acordo (ou melhor, penso ter acordado) no leito onde adormecera, mas a sensação de estar caindo, rodando, é ainda muito forte. Para ter certeza de que acordara, abro os olhos e vejo-me na cama, mas não consigo me mexer. Sleep paralysis, que me acomete com certa frequência desde pequeno (ou melhor, desde criança). E, se por um lado, o sonho lúcido ocorre em ambientes variados e é sempre prazeroso - pois nos permite escolher o que se quer fazer (voar, sexo, surfar, etc.) - a paralisia ocorre comigo sempre no mesmo lugar, ou seja, no leito em que estou antes de começar a sonhar. Ela vem sempre acompanhada de uma sensação sufocante e forte de opressão. A impossibilidade de me mexer, conjugada a uma sensação de peso sobre o peito e/ou de estar sendo imobilizado por alguém (e às vezes a visões de “seres estranhos” se aproximando) é mais do que desagradável. Chega a ser aterrorizante mesmo. À medida que o fenômeno se repetia comigo ao longo dos anos, o terror foi se reduzindo, transformando-se em medo apenas, até ser substituído por uma sorte de resignação.

Consigo - não sem esforço - sair finalmente do estado de paralisia. Levanto-me, bastante aliviado, como sempre depois deste tipo de fenômeno, e vou diretamente ao encontro do meu irmão para lhe contar sobre o sonho lúcido seguido de paralisia do sono que eu acabara de vivenciar. Começamos a conversar. A lembrança acerca dos assuntos falados com ele logo se torna tênue (lembro-me vagamente de ter mencionado um show da Teresa Cristina). Mais lacunas nas lembranças. Passo para a próxima cena, em que um gato sobe na cama, para logo em seguida ser expulso e ganhar uma bronca minha - pois sou alérgico. O bichano parece não ligar para minhas queixas, insiste e volta para a cama. Então eu o seguro com firmeza, imobilizando-o sobre o travesseiro, onde o folgadão decidiu ficar, mas logo me vejo em um impasse, pois receio que, ao soltá-lo, ele tente me arranhar. Decido então retirar minhas mãos de forma abrupta e, neste exato instante, acordo do segundo sonho que, ao contrário do primeiro, era, para mim, realidade até então. Com isso, pude concluir que o primeiro despertar que me tirou da paralisia fora falso, e que eu vivera consecutivamente os três fenômenos discutidos na véspera com meu irmão, ou seja, sonho lúcido, paralisia do sono e falso despertar.

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Neste dia 28/12, uma pessoa especial e muito talentosa faz aniversário. Com suas inescrituras, ela tem me deixado perplexo de admiração e pleno de uma inspiração que, por sinal, vem ajudando a alimentar este blog.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

lucid dream i: reality


Fazíamos um programa típico de domingo à noite, sobretudo quando se está em Sampa. Entramos eu, minha mãe, meu irmão e sua namorada – por conta de quem conversávamos em inglês, já que não falamos nem ucraniano, nem russo – numa destas pizzarias incríveis da capital paulista. O cenário lembrara ao meu irmão o filme O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante, de Peter Greenaway, comparação que se mostraria totalmente adequada à conversa que se seguiria.

Eu havia tido, na véspera, um sonho no qual eu tivera, durante alguns momentos, consciência de que se tratava de um sonho. Mais raro, eu conseguira ter algum controle (decidi voar) e me lembrar disto. Graças ao meu irmão, já sabia que eu havia tido um sonho lúcido e resolvi procurar por lucid dream na Wikipedia, o que me levou a ler sobre outros fenômenos relacionados, tais como sleep paralysis (que, aliás, tenho com muita frequência), false awakening, entre outros.

Meu irmão tendo estudado a fundo e desenvolvido bastante sua própria capacidade de sonhar lucidamente, a conversa do jantar girou em torno desses fenômenos. Repeti o que me lembrava de ter lido um pouco antes, e ouvi meu irmão dizer que abandonara a questão. Falamos dos filmes Waking Life (que eu vira recentemente, porém apenas parcialmente), e Inception (que eu vira duas vezes mas ele não) e que, ao meu ver, misturou à ficção muito do conhecimento atual sobre lucid dreaming.

Naquela mesma noite, antes de dormir, releio os verbetes da véspera, em especial lucid dream e aprendo que uma das condições necessárias para se desenvolver a capacidade de vivenciar o fenômeno é a de se recordar do sonho e que uma simples programação neurolinguística poderia me ajudar a fazê-lo. Decido então repetir em pensamento “vou sonhar lucidamente, vou controlar meu sonho e vou me lembrar dele”. Até adormecer.

Acordo com meu irmão entrando subitamente no meu quarto às 5 da manhã. Meu sono e meu sonho são interrompidos sem lembrança alguma e, portanto, impossível saber se este fora lúcido ou não. Levanto para ajudar meu irmão a encontrar um taxi, despeço-me dele em seguida e volto a dormir. O sono tarda. Penso em idéias para um texto envolvendo os fenômenos conversados no jantar. Começo então a desenvolver o roteiro de um fictício sonho lúcido em que sou um peão de um jogo de xadrez – um soldado medieval – derrotando outro peão em sua diagonal esquerda com uma espada no coração. Volto, enfim, a adormecer. Cerca de uma hora mais tarde acordo, tendo vivido, na ordem, sonho lúcido, paralisia do sono e falso despertar.