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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ipanema


Sob um céu anil
sob um sol servil
sentado numa prancha
a espera de uma onda
de cor verde-esmeralda
água morna me circunda

À direta, a mais alta
e mais bela das Gáveas
Ao seu lado os Dois Irmãos,
unidos como todos gostariam;
À frente, com as Ilhas Cagarras
tão lindas eu flerto, deixando
enciumado o Arpoador, que
vejo espumando à esquerda
-- será que de raiva?

Olhando para trás visualizo
Ipanema há mil anos atrás
quando o mar de prédios
que em sonho sobreponho
cedia lugar a uma restinga

Interrompo meus sonhos
pois ela, tão esperada,
lentamente se aproxima
majestosa, soberana, linda

Quanto tempo teria
vagado esta onda
antes de estourar
na Praia de Ipanema?
Quais caminhos percorrera?
Que outros mares conhecera?

Não escondo o sorriso nos lábios
Os instantes que em breve viverei
me são raros e por isso preciosos

Remo para entrar na onda
logo estou em pé, surfando-a
sentindo toda sua energia
armazenada por dias e dias

De repente, ela me acaricia
com um abraço fraternal
e dentro de um tubo de cristal
me vejo em total harmonia

São poucos e inefáveis segundos
que em vão tento descrever
Poucos de fato, porém indeléveis
- nunca os irei esquecer
Poucos de fato, porém necessários
para se continuar a viver

Ipanema, 03/05/97

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Conselho de Classe


Sábado à noite. Deixo o Teatro Gláucio Gil, em Copacabana, onde vira uma excelente peça: Devassa, adaptação de A Caixa de Pandora, do alemão Frank Wedekind. Despeço-me da Marina, cujas performances admiro há muitos anos. Ligo para Túlio. Programa fechado em menos de 30 segundos: Jobi. 10 minutos depois, no alto da Timóteo da Costa, aguardo no carro, com certa impaciência, a chegada do meu amigo.

Para início de conversa, ele me recomenda ler sua última crônica na Fluir. Protesto dizendo que não sabia que ele estava escrevendo para a revista. Já faz um ano, meu camarada, responde o jornalista-surfista (ou o inverso). Justifico-me dizendo que se ele não houvesse me contado, talvez eu ficasse outro ano sem saber, já que há tempos não comprava a revista.



Descemos a ladeira. Inevitável a volta em torno do quarteirão para achar vaga sem um flanelinha para perturbar. Encontramos uma vaga no final da Dias Ferreira. Vamos aproveitar para comprar a revista no caminho, sugeriu Túlio ao nos aproximarmos da farmácia que outrora fora a Piauí, em frente à qual fica a banca de jornais pioneira na cidade a ficar aberta 24h. Melhor na volta, respondo. Prefiro não ter que ficar segurando a revista em pé, disse, ranheta, prevendo a demora em conseguir uma mesa.

Em um dado momento, a conversa descambou para uma certa opinião feminina sobre barba masculina. Túlio, porém, mudou de assunto com uma pérola da sua filha Ana: “Papai, por que você diz que vai fazer a barba? O certo é desfazer a barba.” Claro. Lógico. A Ana tem toda a razão. Nada melhor do que a lógica de uma criança inteligente de 6 anos para por fim a conversas insistentes. A noite durou mais do que o previsto e o plano de comprarmos a revista ficou comprometido.

Três dias depois, à espera da barca que faz a ligação entre a praia de São Francisco em Niterói e o Centro do Rio, aproveito os mais de 30 minutos ociosos para comprar a revista e ler o artigo. Procuro no índice. Surfe Deluxe. O blog virara crônica na Fluir! Uma leve onda de orgulho pelo meu amigo me percorre.

Logo no início do texto, uma bela recordação de momentos espetaculares e inesquecíveis que vivemos há 20 anos ao surfarmos sozinhos, ainda adolescentes, num dia de aula sem aulas (o tão sonhado conselho de classe), o meio da barra em condições perfeitas. A exatidão e, sobretudo, a sensibilidade da lembrança trouxeram-me uma forte nostalgia que, somada à homenagem e ao visual da praia de São Francisco sob uma luz ímpar, deixaram-me com os olhos cheios d’água -por sinal, salgada como as muitas ondas que surfaremos juntos. Valeu goodfella, aquele abraço!

domingo, 27 de junho de 2010

Ipanema e Leblon


Era obcecado não apenas pelo universo, mas também pelo oceano que, apesar de finito, não deixa de ter seus recantos indecifráveis e inacessíveis. Oceano que, perto da plataforma continental, torna-se mar. Mar que trouxe sal à sua vida.

Ipanema.

Natação no clube desde moleque. À medida que a criança cresce, o mar torna-se um amigo cada vez menos reticente e vai abrindo aos poucos as portas da sua casa. Quanto mais ousada a criança, mais intimidade ela ganha.

8 anos. Uma primeira experiência solitária na arrebentação (pais muito relaxados, confiantes ou negligentes - felizmente) com prancha de isopor, e um primeiro caldo que faria chorar qualquer criança. Algumas ficariam traumatizadas, mas para outras, o prazer da primeira onda surfada seria tão fantástico que anularia a dor física, o medo e as lágrimas causadas pela asfixia do caldo e pagaria a pena do bis repetita.

11 anos. Não há asfixia. Não há dor. Mas o medo é triplicado, como o tamanho das ondas e a força do mar. Estar no lugar errado no momento errado, nestas circunstâncias, poderia significar um caldo mais do que apenas traumático. A criança começa a ter, de forma muito superficial, noção da fugacidade da sua vida. Ao mesmo tempo, fortalece sua relação com o mar. Troca, aos poucos, o medo pelo respeito - o que, por sua vez, abre portas de corredores cada vez mais longos. Quando a criança percebe, já está na sala de estar – com um misto de ousadia, respeito e admiração.

Adolescência. Tendo o privilégio de morar perto do seu amigo mar, e vai visitá-lo todo dia, faça chuva ou faça sol. A escola não é problema. Ao contrário, pois nela ele conhece outras ex-crianças com pais relaxados-confiantes-negligentes, e que tiveram mais fissura do que medo de repetir a experiência aterrorizante.

Troca de experiências com os colegas de turma. Novas praias. Canais. Pedras. Ressacas. Aventuras cada vez mais arriscadas. O adolescente é imortal e não percebe que às vezes o risco é maior do que suas competências, e que pode ser até fatal. Tem sorte. Muita. Santo forte.

Leblon.

17 anos. Ressaca no Pontão. A maré muito alta impossibilita o mergulho pelo píer (técnica aprendida com um colega de escola, que depois se tornaria um irmão. Companheiro não só de ondas, mas também de letras. A descoberta desta segunda afinidade, tão marcante quanto à primeira, fora regada por chope gelado e carne seca acebolada com farofa, azeite e pimenta no Jobi, alguns anos depois, mas a apenas alguns poucos quarteirões de distância)

O jovem pensa estar preparado física, psicológica e tecnicamente para, sozinho, ir visitar o mar em um dos seus cômodos mais recatados. Ondas perfeitas. Pouquíssimos surfistas na arrebentação. Não havia confronto nem enfrentamento. Tratava-se apenas de uma visita – ou melhor, uma tentativa.

Com o coração a mil, ele não percebe o banho que alguns incautos expectadores levam da onda que bate na calçada. A vontade de pegar as ondas, alimentada pela vaidade despertada pela platéia que lota o calçadão e o mirante para olhar a ressaca, são maiores que o medo e o bom senso. No instante seguinte, aproveita a calmaria (a onda que molhou boa parte dos incautos observadores era a última da série) e desce rapidamente as escadas para entrar no refluxo da mesma onda e aproveitar sua força para percorrer os mais de 150 metros que o separavam do ponto onde as ondas perfeitas estavam quebrando.

Entre o concreto das escadas e as pedras do píer, mergulha com sua prancha no mar. A profundidade no local do mergulho é de poucos centímetros e o mergulho tem que ser preciso para não que a quilha da prancha não quebre. A técnica de seguir o refluxo pelo canal ajuda. Rapidamente ele está na altura do fim do píer, na metade do caminho, mas ainda muito longe do seu objetivo: ultrapassar a zona de impacto, onde as ondas de quase 3 metros quebravam com uma força, frequência e estrondo assustadores.

No estreito canal formado ao longo do píer, algumas pedras são aparentes. O adolescente rema furiosamente na direção do mar aberto. Após alguns minutos sem conseguir avançar percebe que, apesar do seu bom preparo físico (sessões quase diárias de surfe e de natação, corrida na areia fofa, etc.), ele não tem força para cruzar a arrebentação. A sensação de alívio trazida por essa simples constatação é maior do que a frustração de não poder surfar as ondas perfeitas. Alguns anos mais tarde, o adolescente se daria conta que a barra estava literalmente muito pesada e, que ele estava sem o equipamento necessário. E o mar, sábio amigo, fechara as portas com o simples objetivo de preservar a amizade.