sábado, 14 de agosto de 2010

in the air


Ele tinha crises pontuais: sentia tanto amor, por tudo e por todos, que visualizava o sentimento extravasando pelos seus poros. Felizmente, estas crises eram raras e duravam poucos segundos.

Também passou a desenvolver técnicas especiais. Sua preferida era a cruzar as pernas e de apoiar o cotovelo no braço das cadeiras dos aeroportos (que frequentava com certa assiduidade) , apoiando em seguida o rosto no punho fechado. De óculos escuros, conseguia dormir a ponto de sonhar. Até que um belo dia perdeu um vôo, com o cartão de embarque no bolso da camisa. Não desistiu. Mas passou usar alarme antes de dormir.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

BG


Rodeado de amigos. Distante, portanto, de quaisquer perigos. Enquanto a vida vai embora, cerveja dentro, conversa fora. De uma mesa do Hipódromo vê-se a lua da alta madrugada. “Diante do universo somos átomo, um grão de areia, um quase nada”, diz alguém. Outro brinda: “Aos átomos etílicos!”. Surge entre nós um e outro verso, e de poesia nos pretendemos ricos.

Ipanema, circa 1998

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Le talon


Ele estava sentado em um café, esperando seu vôo de volta para o Rio quando ela passou, com um sapato de salto tão alto e tão fino que tornava evidentes as razões da dificuldade mal disfarçada que ela tinha em andar. Esta habilidade certamente seria desenvolvida com o passar dos anos - que no seu caso ainda eram poucos. Boa parte da autoconfiança daquela jovem, estampada em seu belo sorriso, apoiava-se, naquele momento, literalmente em seu sapato. Ele não deixou de lhe dar razão e, com esta simples observação, passou a entender um pouquinho melhor algumas idiossincrasias femininas.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Ego e Deus


A maior frustração de Ego foi descobrir que não era Deus. Sentiu-se perdido ao ter plena consciência de que ele era apenas ele mesmo. Foi um baque sério na sua autoconfiança, que até então era tanta que resvalava a arrogância e flertava com uma vaidade escabrosa. Nada como os golpes da vida para baixar a bola dos Deuses de plantão.

O egocentrismo, no entanto, ficaria como uma cicatriz em sua pele. Duas décadas mais tarde, Ego veria outro Deus, este vindo de um pouco mais ao sul do Equador que ele, baixar literalmente sua bolinha. A escovada que sua equipe levou na África do Sul foi um choque de realidade. Daqueles que fazem com que alguns “Deuses” percebam que são de fato humanos.

Foi fácil para Ego entender as razões do prazer intenso e inefável que sentira com a humilhação do técnico argentino. A hostilidade que ele sentia por Maradona tinha como justificativa a arrogância que o craque fanfarrão fazia questão de ostentar publicamente na mídia. Ego, porém, tinha plena consciência de que no fundo o incômodo existia porque Maradona o remetia à sua própria arrogância e ao seu próprio egocentrismo.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Encontros e desencontros
Na madrugada de domingo
Sexos opostos se atraem
Mas há uma barreira
A ser transposta
Um paradão de gelo
A ser escalado
Não me sinto alpinista
Deixo de lado cordas
Pinos e mosquetões
E recorro à caneta
Vejo, do topo da colina
A silhueta feminina
Bela e intocável
Vontade e receio se mesclam
Escrevo minha mensagem
Que como uma folha seca
Desce suavemente
Planando ao sabor do vento
Fico de cima observando
Mas não a espero chegar
Talvez a atração
Seja numa só direção
Mas jamais saberei
Não quero, não importa
Me basta a inspiração
E do outro lado da porta
A madrugada do primeiro
Dia de agosto no Rio
Me receberá abertamente
Com um sorriso quente
Um abraço frio
E a lua cheia de brinde

Bukowski, 01/08/1999

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Lua da Janela


Madrugada em Ipanema. Ele entra em seu quarto. Luz apagada. Janela aberta. Ao ver uma luz forte e azulada no chão, ele pensa consigo: “É ela!” Acode à janela verificar. De fato era. Cheia. A pino.

O seguinte lhe vem à cabeça e é passado imediatamente para o papel:


Uma réstia de luz azulada

vem de uma fresta

da janela do meu quarto

que resta aberta


Uma fresta da lua

no resto da noite


Uma fresta da madrugada no papel.


Ele recorre ao dicionário. Procura pela palavra fresta, para se certificar do sentido empregado. Satisfaz-se. E encontra também o seguinte:

3. Fenda, greta, frincha, fisga. “contemplei-a do terraço, através da fresta do batente, e meu propósito de paz se acentuou” (Antônio Olavo Pereira, Marcoré, p. 173).

Até então, ele não sabia que o livro do seu avô havia sido citado no Aurélio. Milhares e milhares de verbetes, e ele cai justamente sobre um que citava seu avô, que sempre o aconselhava de ler uma página de dicionário por dia. Ele, no entanto, indolente, raramente o abria.

Por este motivo, e também por ter escrito aquelas linhas de sopetão, o que lhe é raro, ele suspeitara, na época do ocorrido, de que seu avô as haveria soprado em seu pensamento. Hoje, esta suspeita foi diluída pelos anos passados no país das luzes.

domingo, 27 de junho de 2010

Ipanema e Leblon


Era obcecado não apenas pelo universo, mas também pelo oceano que, apesar de finito, não deixa de ter seus recantos indecifráveis e inacessíveis. Oceano que, perto da plataforma continental, torna-se mar. Mar que trouxe sal à sua vida.

Ipanema.

Natação no clube desde moleque. À medida que a criança cresce, o mar torna-se um amigo cada vez menos reticente e vai abrindo aos poucos as portas da sua casa. Quanto mais ousada a criança, mais intimidade ela ganha.

8 anos. Uma primeira experiência solitária na arrebentação (pais muito relaxados, confiantes ou negligentes - felizmente) com prancha de isopor, e um primeiro caldo que faria chorar qualquer criança. Algumas ficariam traumatizadas, mas para outras, o prazer da primeira onda surfada seria tão fantástico que anularia a dor física, o medo e as lágrimas causadas pela asfixia do caldo e pagaria a pena do bis repetita.

11 anos. Não há asfixia. Não há dor. Mas o medo é triplicado, como o tamanho das ondas e a força do mar. Estar no lugar errado no momento errado, nestas circunstâncias, poderia significar um caldo mais do que apenas traumático. A criança começa a ter, de forma muito superficial, noção da fugacidade da sua vida. Ao mesmo tempo, fortalece sua relação com o mar. Troca, aos poucos, o medo pelo respeito - o que, por sua vez, abre portas de corredores cada vez mais longos. Quando a criança percebe, já está na sala de estar – com um misto de ousadia, respeito e admiração.

Adolescência. Tendo o privilégio de morar perto do seu amigo mar, e vai visitá-lo todo dia, faça chuva ou faça sol. A escola não é problema. Ao contrário, pois nela ele conhece outras ex-crianças com pais relaxados-confiantes-negligentes, e que tiveram mais fissura do que medo de repetir a experiência aterrorizante.

Troca de experiências com os colegas de turma. Novas praias. Canais. Pedras. Ressacas. Aventuras cada vez mais arriscadas. O adolescente é imortal e não percebe que às vezes o risco é maior do que suas competências, e que pode ser até fatal. Tem sorte. Muita. Santo forte.

Leblon.

17 anos. Ressaca no Pontão. A maré muito alta impossibilita o mergulho pelo píer (técnica aprendida com um colega de escola, que depois se tornaria um irmão. Companheiro não só de ondas, mas também de letras. A descoberta desta segunda afinidade, tão marcante quanto à primeira, fora regada por chope gelado e carne seca acebolada com farofa, azeite e pimenta no Jobi, alguns anos depois, mas a apenas alguns poucos quarteirões de distância)

O jovem pensa estar preparado física, psicológica e tecnicamente para, sozinho, ir visitar o mar em um dos seus cômodos mais recatados. Ondas perfeitas. Pouquíssimos surfistas na arrebentação. Não havia confronto nem enfrentamento. Tratava-se apenas de uma visita – ou melhor, uma tentativa.

Com o coração a mil, ele não percebe o banho que alguns incautos expectadores levam da onda que bate na calçada. A vontade de pegar as ondas, alimentada pela vaidade despertada pela platéia que lota o calçadão e o mirante para olhar a ressaca, são maiores que o medo e o bom senso. No instante seguinte, aproveita a calmaria (a onda que molhou boa parte dos incautos observadores era a última da série) e desce rapidamente as escadas para entrar no refluxo da mesma onda e aproveitar sua força para percorrer os mais de 150 metros que o separavam do ponto onde as ondas perfeitas estavam quebrando.

Entre o concreto das escadas e as pedras do píer, mergulha com sua prancha no mar. A profundidade no local do mergulho é de poucos centímetros e o mergulho tem que ser preciso para não que a quilha da prancha não quebre. A técnica de seguir o refluxo pelo canal ajuda. Rapidamente ele está na altura do fim do píer, na metade do caminho, mas ainda muito longe do seu objetivo: ultrapassar a zona de impacto, onde as ondas de quase 3 metros quebravam com uma força, frequência e estrondo assustadores.

No estreito canal formado ao longo do píer, algumas pedras são aparentes. O adolescente rema furiosamente na direção do mar aberto. Após alguns minutos sem conseguir avançar percebe que, apesar do seu bom preparo físico (sessões quase diárias de surfe e de natação, corrida na areia fofa, etc.), ele não tem força para cruzar a arrebentação. A sensação de alívio trazida por essa simples constatação é maior do que a frustração de não poder surfar as ondas perfeitas. Alguns anos mais tarde, o adolescente se daria conta que a barra estava literalmente muito pesada e, que ele estava sem o equipamento necessário. E o mar, sábio amigo, fechara as portas com o simples objetivo de preservar a amizade.