What happened tou you?
What’s it going to be?
I’m feeling so blue
‘cause you haven’t call me
Am I asking too much?
I would like to touch
Your hair and your skin
(It is my only dream)
Where are you, sweet voice?
Have I got a chance?
Or rather a choice?
Am I waiting in vain?
I just wanted to dance
With you in the silent
Darkness of my room
I wanna kiss you again
Under that red full moon
Don’t let me in pain
Under that cold rain
Please set free our souls
And tell us the truth
The energy that flows
Underneath our youth
Is clear and strong
But it won’t last so long
Ipanema circa 1998
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
vol de nuit
Ou Lua da Janela ii
Acordara de madrugada, com a presença, de certa forma intrusiva, da lua em seu quarto. Sua luz, projetada pela janela, recortava o chão sob a forma de um retângulo azulado e tornava nítidas as silhuetas da mobília.
Levantou-se preguiçosamente, abriu a porta que dava acesso à varanda e apoiou as duas mãos na grade de proteção. Admirava a lua cheia e a noite magníficas quando, subitamente, a grade cedeu.
Caindo no vazio, grita de terror e fecha os olhos para não ver o chão se aproximando. O que nunca ocorre. Quando isso torna-se evidente, a queda livre torna-se confortável. Em certo momento, o movimento muda de direção, de vertical, passa à horizontal.
Mais um sonho daqueles, mais um vôo noturno, nos quais as imagens são, por alguma razão desconhecida, mais nítidas que nos outros sonhos. Passa por cidades e por lugares de natureza estupenda, e a noite vira dia. Aproxima-se do chão e reconhece nas pessoas a fisionomia típica dos orientais. Elas no entanto estão em pânico. Percebe então que está sobrevoando uma cidade em pleno terremoto. O pesadelo tornara-se recorrente, porém não duraria muito tempo, posto que logo seus olhos se abririam para perceber o mesmo retângulo azulado de antes.
O sono tranquilo e sem sonhos vem de imediato. Ao acordar, lembra-se das duas fatias de pesadelo recheadas de um sonho muito agradável. Liga seu computador para iniciar o dia de trabalho e, ao ver as manchetes do jornal, um calafrio lhe percorre a coluna: “terremoto no Japão mata 200 nesta madrugada”.
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segunda-feira, 11 de outubro de 2010
v.i. vii
ou "i.i. iii"
Hoje alguém muito querido e especial para Marcoré faz 65 anos. Palavras são insuficientes para descrever seu amor, sua gratidão e sua admiração. Mas que ao menos fique o registro.
Havia acabado de acomodar seus quase 100 kg sobre a poltrona que de forma alguma fora concebida para pessoas do seu porte. Ainda tinha estampada na mente, como uma fotografia, o rosto da aeromoça que estava na porta da aeronave, de excepcional beleza. Pensou então em seus tempos de atriz de cinema na França, onde se exilara da sua Ucrânia natal, e lembrou-se da própria beleza 30 anos e 30 kg atrás. Em seguida viu a aeromoça descarregar, sobre um rapaz totalmente convencional, um olhar de desprezo tão intenso que ela se arrepiou inteira. Ao ver a reação do pobre diabo à sua frente, não diferente da sua, sentiu pena. Olhou-o em seus olhos, transmitindo sem perceber uma paz tangível que ele pareceu absorver como uma injeção na veia.
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Hoje alguém muito querido e especial para Marcoré faz 65 anos. Palavras são insuficientes para descrever seu amor, sua gratidão e sua admiração. Mas que ao menos fique o registro.
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quarta-feira, 6 de outubro de 2010
v.i. vi
ou "i.i. ii"
Amaldiçou a própria beleza hollywoodiana, conjugada à profissão: não aguentava mais os sedutores (e sedutoras) de plantão e seus olhes convidativos, instigantes, sugestivos, etc... Todos fustigantes. A raiva e a frustração acumuladas durante uma década voando pela mesma empresa haviam, definitivamente, atingido os limites. A represa transbordava sobre aquele projeto de Don Juan, com seu olhar pseudo-cativante. Com seus olhos de um azul sem igual, ela o fuzilou com tudo. Ele sentiu a descarga na pele: seus pelos se eriçaram e um arrepio lhe percorreu a coluna, do cóxis até o pescoço, terminando com um ligeiro chacoalhar de ombros. Tudo fora percebido por ela, que se sentiu esvaziada, limpa, aliviada. Suas pernas vacilaram e se não fosse um colega de reflexos rápidos, talvez tivesse despencado escada abaixo. O pobre diabo de gota d'água nada notara, envolto que estava pelo olhar angelical de uma linda senhora ucraniana, de onde emanava algo inexplicavelmente tão forte a ponto de imediatamente anular o efeito do choque sentido no instante anterior.
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sábado, 2 de outubro de 2010
v.i. v
ou "inescrituras' interaction"
Assim que vislumbrou a silhueta da aeromoça que recepcionava os passageiros, soube-a de uma beleza ímpar. Seu reflexo foi de procurar seus olhos, que descobriu azuis como a companhia, porém cinzas e frios como o dia. Havia naquele olhar algo que ia muito além da frieza e que desencadeou nele um choque de adrenalina, como se ele tivesse dropado uma onde de 3 metros numa ressaca no Pontão do Leblon. Teve medo. Cruzou por acaso o olhar de uma senhora muito gorda de cores e traços eslavos que, por algum motivo, também desconhecido, o apaziguou imediatamente. Atropelou, por não tê-la notado, a bela moça de cabelos castanhos e cacheados e olhos tristes que estava parada à sua frente e que se desculpou sem ter motivos para tanto.
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terça-feira, 14 de setembro de 2010
glasses turner
Ele tinha uma relação absolutamente contraditória com a astrologia. Sentia uma pontinha de inveja dos que adivinhavam o signo dos outros com menos de um minuto de conversa, porém ele mesmo tinha dificuldades de lembrar todos os signos do Zodíaco. Sabia os do seu irmão e da sua mãe, mas não sabia nem o do seu pai, nem o da sua última paixão. Todas as vezes em que lera seu mapa astral, ficara bastante impressionado, porém aqueles mapas nunca tiveram algum tipo de influência em sua vida. O determinismo contido implicitamente naqueles planos astrais o incomodava muito.
Ele a havia conhecido recentemente. Acabaram trocando figurinhas literárias e astrológicas: ele forneceu hora, dia e local de seu nascimento. Ela lhe enviou em seguida uma longa mensagem com conjunções entre sol, lua e planetas. Era um mapa astral. Fazia décadas, literalmente, que ele tinha lido seu mapa astral (influência de sua mãe), perdido e esquecido também há outro tanto tempo. Mais uma vez ele ficara impressionado. E novamente, incomodado com o determinismo.
Nesta última leitura surgiu a dúvida: quer dizer que aqueles que nascem no mesmo dia, hora e local seriam “gêmeos astrais”? Mas e o ambiente psico-social? Ele não pode deixar de ter influência no indivíduo, pensou ele. Lembrou das aulas de biologia que ele não havia matado para ir surfar (nada contra a biologia, era apenas fácil demais): genótipo, características genéticas no momento do nascimento; fenótipo, como estas características se manifestam em função do ambiente. Ou algo assim. Fez o paralelo entre a mensagem recebida, que continha uma descrição incrivelmente precisa das suas características em função da conjunção dos astros no momento do seu nascimento. Algumas destas características, verdadeiras no passado, porém, já não batiam. Ele havia mudado. Evoluído ou involuído, dependia do ponto de vista. E pensou “Ora, esta conjunção de astros no momento do meu nascimento é o meu 'genótipo astral' (ou melhor, astrotipo). Boa parte das características permaneceu, mas alguma coisa mudou. O meu fenótipo é diferente. E outras coisas poderão ainda mudar ainda. Tomara”. Pesquisou a etimologia de fenótipo. Do grego phaino, aparecer, brilhar. O termo fenótipo astral fazia sentido. Cunhou para si os conceitos de gêmeos astrais, astrotipo e fenótipo astral, e assim mitigou seu desconforto com o determinismo intrínseco aos mapas astrais.
Continuou, porém, negligenciando o que os astros lhe diziam.
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quinta-feira, 9 de setembro de 2010
v.i. iv
ou "le talon ii" (ou ainda "a benção")
Estava novamente no saguão do aeroporto de Viracopos em Campinas, esperando o embarque para o Rio. Definitivamente aquele local o inspirava. Mais pela espera ociosa do que pelo ambiente em si. Sua técnica para dormir sentado não funcionara desta vez. Lembrou-se então da bela jovem de salto muito alto e muito fino que vira algumas semanas antes naquele mesmo lugar. Se deu conta então que seu sentimento em relação aos sapatos daquele tipo eram contraditórios. Por um lado, os achava bonitos e apreciava bastante o charme por eles conferido às suas portadoras; por outro, os via como uma barreira física, já que eles tornavam pontos estrategicamente vulneráveis, tais como nuca, orelhas e boca, distantes da sua. Às vezes, mais que distantes, fora de alcance mesmo. Além disso, via naqueles sapatos uma arma. Isto desde o dia em que imaginou uma linda mulher com um salto absurdamente fino esticando a perna em sua direção e empurrando o calcanhar para fora, como uma benção (bem naquele lugar). Por que cargas d’água os capoeiristas chamavam esse chute de benção, ele não sabia. Depois de imaginar a cena, percebeu toda ironia contida no nome daquele golpe.
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